Sofia Vilarinho

Designer de Moda e Curadora do Moçambique Design Day

Sofia Vilarinho - Designer de Moda e Curadora do Moçambique Design Day

Sofia Vilarinho, designer de moda, curadora do MOÇAMBIQUE DESIGN DAY a realizar-se no dia 10 de Outubro no Lisboa Design Show – “Um dia em cheio! Criativo. Um dia com boa conversa a partir da mesa redonda Fashion & Design Talks, onde estarão presentes personalidades de ambos os países Portugal e Moçambique. Um dia para ver desfiles de Moda, sorrir e brindar ao design intercultural…”
O design de moda é a sua paixão e foi por influências do estilista Fernando Nunes que abraçou o mundo da Moda.
Quando tinha seis ano, era uma criança  um pouco maria –rapaz nas brincadeiras…”basquete era a minha perdição…” Foi uma sombrinha estilo anos 50, propriedade da sua avó que a levou a descobrir a relação com a feminilidade e a elegância… “devo à minha avó a paixão por  esta arte…”
“Projetei o Capulana[r] para uma mulher cosmopolita, consciente consigo e com o “outro”…”…

Quem é a Sofia Vilarinho?
Chamaram-me Sofia, eu chamei-me de Vilarinho. Acima de tudo sou mulher! Uma mulher com carácter muito próprio. Como criativa, encontrei no Design de moda a minha paixão. A roupa tornou-se o meu instrumento de manifesto. A realização  maior  está no facto de sentir que o meu trabalho contribui para promover mudança na parte do mundo que consigo alcançar. Crio a partir da forma como penso e sinto o mundo.

Qual a sua formação?
Design de Moda , pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa. Desde 2010 a frequentar um Doutoramento em Design, nesta mesma Universidade. O Objecto de estudo da minha tese é a capulana de Moçambique e desenvolve-se sobre o título: Mozambique’s Capulanas in a D4S design perspective: identity, tradition and fashion-able challenges in the XXI century.

Quando decidiu enveredar pelo mundo do design?
Com uns 20 anos fiz um curso de artesanato têxtil, no Ceart em Coimbra, e foi lá que conheci o estilista Fernando Nunes, na altura meu professor. Ele falou-me  que- obrigatoriamente- eu tinha de seguir Design de Moda e foi aí que tomei conhecimento do que era o design, a partir da academia.

Quando tinha 6 anos de idade o que gostava de ser quando fosse grande? Designer?
Com 6 anos não conhecia  a palavra designer, gostava de desenhar. Acho que não pensava em ser desenhadora, nem me lembro do que pensava nessa altura.  Adorava animais e desenhava.

Era uma daquelas meninas que “fazia” a roupa para as bonecas?
Não . Em criança fui um pouco Maria –rapaz nas brincadeiras( basquete era a minha perdição).  Lembro-me que  com 16 anos apropriei uma sombrinha estilo anos 50 que era da minha avó . E com ela descobri a relação com a feminilidade e a elegância que há em mim. Comecei a “brincar” a isso e foi assim que quis aprender a fazer roupa.  Devo à minha avó a paixão por  esta arte.

Na sua  carreira, com grande sucesso, tem tido os apoios necessários para avançar com o seu projeto?
Apoios? Depende ao que se refere. Se forem emocionais tenho todo o apoio do Mundo. No que confere aos financeiros nem por isso. Mas no momento sou bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia e estou muito grata por terem acreditado e financiado este meu projeto de investigação.

Como gere e lida com os obstáculos? E com o sucesso?
Os obstáculos são oportunidades. O sucesso é a resposta.

Quer falar-nos do seu projeto CAPULANA [R]?
Capulana[r] nasce da minha investigação de Doutoramento em Design acerca da capulana de Moçambique.  Capulana[r]  tornou-se  verbo . Capulana[r] tem em si um beat de estilo  contemporâneo a partir de um  retângulo de tecido. Uma ação de vestir que torna em progresso aquilo que se adquiriu como tradição. Capulana[r] nasce  no encontro de formas – outras – que derivam da tradição moçambicana de amarrar o pano. Capulanar [r]evisita a tradição , [r]eafirma identidade, [r]einventa o corpo, [r]enova –se a cada dia da semana, [r]ecria  individualidade.
Capulana[r] tem por base um processo de criação colaborativo (o co-design). Numa primeira fase convidei três jovens designers ( Ermelinda Mandlaze, Vanessa Monteiro e Plácida Mendes) a participar, elas já que tinham feito o meu Capulana Lab na Universidade da Beira Interior e por isso já estavam “sintonizadas” com o projeto. Os resultados  cresceram em team –work. Numa próxima fase o projeto evolui com a participação do user .
Capulana[r] é um projeto que convida à participação, sejam bem-vindos.

CAPULANA[R ] nasce a pensar em que publico?
Projetei o Capulana[r] para uma mulher cosmopolita, consciente consigo e com o “outro” . Esse “outro” que existe numa versão alternativa, vista de fora para dentro ou de lado para cima. Um usuário  consciente com factores ambientais e com o  slow- fashion e que acima de tudo gosta de participar  no seu estilo, pois capulana[r]  permite-lhe variações personalizadas.

Porquê um projecto focado na tradição e cultura Moçambicanas?
O Vasco da Gama que há em mim? eheh
Talvez e, a um nível pessoal, quisesse descobrir um mundo novo , o que está para lá da Europa. Estava aborrecida da Europa. Esse sentimento levou-me a marcar, em 2009,  uma conversa em formato de reunião com o Diretor do Museu Nacional de Etnologia( MNE), o professor Joaquim Pais de Brito.
África era para mim uma incógnita e queria perceber o que está para lá e o que ficou dos (in)tensos encontros culturais, foi aí que o professor me falou sobre a capulana de Moçambique. Um objeto que me  fascinou, um estagio de um ano, a analisar a pequena coleção de capulanas que existe nas reservas do MNE. Daqui parti para o doutoramento sobre este pano.
Simultaneamente e em termos profissionais, comecei a interessar-me pela sustentabilidade no design. Encontrei em África(Moçambique), um lugar de reflexão sobre outras  práticas de vestir que estão para lá do fashionable. Questionei-me sobre a potencialidade num retângulo de tecido. Fascinei-me pelas suas formas e pelo diálogo –ação desse pano estampado e o seu significado no seio da cultura moçambicana.

Qual a importância do LXD para  a CAPULANA[R]?
O LXD é de enorme importância para este projeto. É uma importante plataforma para dar a conhecer a criatividade nacional e levá-la mais longe. Qualquer designer precisa de visibilidade e negócio e o LXD proporciona esse lugar .

 A Sofia Vilarinho é a Curadora do MOÇAMBIQUE DESIGN DAY, o que podemos esperar deste dia?
Um dia em cheio! Criativo. Um dia com boa conversa a partir da mesa redonda Fashion & Design Talks, onde estarão presentes personalidades de ambos os países Portugal e Moçambique. Um dia para ver desfiles de Moda, sorrir e brindar ao design intercultural.

MOÇAMBIQUE DESIGN DAY é a 1º edição a realizar-se no âmbito do LXD, podemos contar com outras edições? Ou é um projecto pontual para esta edição?
Sim claro. Outras edições virão. Quero fazer deste evento (  e com o apoio da Fundação AIP e do projeto Lisboa Design Show) o primeiro evento Nacional a mostrar o design Moçambicano e a abrir pontes criativas e de negócio à escala Internacional tanto para estilistas Moçambicanos como para designers Portugueses a trabalhar a partir da cultura moçambicana. Fica desde já o desafio aos designers e estilistas.

A Sofia está envolvida em vários outros projectos, quer falar-nos deles?
O processo de doutoramento limita um pouco o meu campo de ação noutros projetos que não estão diretamente ligados à minha investigação.  Mas sim além do Capulana(r) criei o AAA-Atelier Alfaiates Africanos. Como parte dos labs de investigação, estou a trabalhar com um grupo de alfaiates africanos imigrantes a viver em Lisboa.  Um projeto que começou em Maputo e que veio ter lugar em Lisboa quando fui à procura dos alfaiates que aqui viviam. Os alfaiates são, a par com os estilistas, os principais agentes pela moda Africana contemporânea.
Este projeto de intervenção e inovação social, criou a 1ª plataforma de co-educação para alfaiates africanos ( a ser operacionalizada no Modatex em Benfica) e também o Atelier Alfaiates Africanos (AAA) .
A primeira turma de alfaiates já acabou o curso(2012-2013)  e já iniciei com outra turma  de mais 12 alunos alfaiates(2013-2014) . O primeiro grupo de alfaiates já trabalha comigo no AAA , os outros virão a seguir. Um projeto que pelo seu carácter sustentável pretende dar visibilidade à figura do alfaiate africano e  permitir a sua melhoria de condições de vida , através da produção de uma linha de roupa que inspira e nos torna mais juntos a celebrar o carácter do design que liga a Europa e a África. O Atelier é um lugar onde a arte de talhar roupa, a alquimia e o progresso se misturam para criar  design em cada peça de roupa. E vai ser apresentado durante o Lisboa Design Show.

O que a apaixona no mundo da moda? E na sua vida?
Na moda, a capacidade de (re)construir identidades e contribuir para uma mudança .
Na minha vida apaixono-me por coisas simples, até pelo facto de ter tido a oportunidade de viver. Como não sou eterna apaixona-me a ideia de eternizar algo através da minha criatividade.

Mudava de país para viver a sua paixão pela moda?
Talvez.

Além de Moçambique, que outro país gostaria de viver e trabalhar a sua paixão?
New York ou Dubai

Ser designer de moda em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo é a mesma coisa?
Sim penso que sim. Em toda  parte do mundo, a cultura influência, as  circunstâncias limitam ou potenciam ,  a economia faz crescer,  a religião condiciona ou inspira, a mentalidade cultural abre ou fecha portas. Cada país tem os seus “prós” e os seus “contras”, verdade? O  que encontro em Portugal posso não encontrar em Paris, o que encontro em Paris posso não encontrar em Tóquio ou em Moçambique. Penso que a potencialidade de um designer é de facto conseguir criar, partindo das condicionantes do país onde trabalha .  É por aqui o caminho.

Quem dita as tendências da moda?
Do que entendo por Moda, são os gabinetes de tendências que as lançam, contudo estas “normativas de estilo” nascem da própria sociedade. Na rua são captadas inúmeras tendências que depois sobem às passerelles.

Por exemplo,  quem dita a tendência “Cor”? A indústria Química?
São os gabinetes de tendências , que trabalham pelo menos 3 a 4 anos antes da cor- tendência estar nas lojas.

Qual o “estado” da moda em Portugal?
O estado da Moda oscila de acordo com o estado do próprio país. Moda é também política, sociologia e é economia.

Existe espaço no mercado para o nº de designers moda que todos os anos saem do ensino?
Não sei, o que tenho observado é que existem muitos designers de moda a serem formados anualmente e tenho-me questionado se de facto conseguem trabalhar no mundo da moda.

A indústria portuguesa, têxtil, confecção, calçado, etc é receptível aos designers e criativos de moda?
Penso que cada vez mais os industrias estão a ter consciência da necessidade de um designer para criarem linhas mais apuradas , contemporâneas e de maior valor funcional vs estético .

Como podemos projectar os designers portugueses no mercado internacional?
Por exemplo através de iniciativas como a LXD. Espaços de demostração de design, onde a própria organização do evento se preocupa em trazer empresários e outros agentes para negociações que possibilitam a dar maior visibilidade ao designer e ao produto.

Considera que as marcas portuguesas têm palco no mercado internacional?
Sim, absolutamente .

O que diferencia a economia da moda ( industria) portuguesa, por exemplo da Italiana? Qualidade existe, certo?
Mentalidade, porque qualidade temos.

Como combater a deslocalização dos empresários da moda  para a China?
A produção Chinesa tornou-se um problema . Habituámo-nos  à mão- de -obra barata. E os Chineses foram astutos em responder a dois dos síndromes das nossas sociedades contemporâneas : a imitação e o fast ! Penso que uma das formas de combater este fenómeno é de facto a mudança de consciência, pois a  produção barata implica escravização de vidas humanas. Quando no mundo o dinheiro deixar de ter importância,  outros valores vão nascer.

A industria do calçado tem ganho espaço no mercado internacional, e algumas marcas portuguesas têm surgido nos últimos anos? A que deve-se este movimento? Estratégia do sector?
Eu não conheço muito sobre a industria do calçado. Mas sim talvez outras estratégias e de facto terem apurado o design e a qualidade dos produtos.

Pode a conjuntura económica global influenciar as tendências do design?
Sim sempre influencia. Aliás o atual chavão do design é a  sustentabilidade. Pois chegou-se ao momento do colapso económico/ ambientais, dai a preocupação do desígnio sustentável.   É importante que o designer tome uma maior consciência sobre os produtos que desenvolve pois na verdade construímos objetos que se não forem bem pensamos resultam em lixo. Tudo no mundo é desenhado.

Curiosidades sobre Sofia Vilarinho

Género musical preferido: Tudo menos heavy metal e música pimba !
Género literário preferido: Ensaio
Autor preferido: tantos
Realizador preferido: Ontem Fellini , hoje o Godard,
Filme preferido: tantos
Livro de cabeceira: livros do Osho
Um álbum que a tenha marcado: Karam de Kimi Djabaté
Um livro que a tenha marcado: Design Activism: Beautiful Strangeness for a Sustainable World do autor Fuad –Luke
Um filme que a tenha marcado: “2046”
Nas férias: praia ou campo? Praia
Um destino de férias (nacional ou internacional): Ilhas do Índico
Pratica alguma actividade física? Sim corrida, caminhada e algum yoga na zona beira rio Tejo
Em férias, qual o destino nacional que recomenda? Zambujeira do Mar
Qual a sua cor favorita? Amarelo ouro.
Qual o seu fruto favorito? Anona
Divisão da casa favorita? Biblioteca
Divisão da casa onde passa mais tempo acordado? Entre o Atelier e a biblioteca
Prefere trabalhar em casa ou fora de casa? Ambos, depende do que tenho para fazer.
Prato preferido da gastronomia nacional ? Uhm…da gastronomia nacional  somente o peixe, mas para ser sincera não tenho prato preferido.
Sobremesa preferida da gastronomia nacional? prefiro queijo.
Água, vinho ou cerveja? Depende da ocasião e da companhia
Tem algum animal de estimação? Como se chama? Sim o gato Mussá.