Paulo Pereira – Saccus

Designer SACCUS

Paulo Pereira – Saccus

Paulo Pereira, designer profissional, cria a marca SACCUS, em exposição no Lisboa Design Show, peças que recorrem a matéria-prima 100% portuguesa – o Burel e pele de curtimenta 100% vegetal.
Longe da sua imaginação e dos seus pensamentos, este observador e aventureiro q.b., desde criança ocupava os seus tempos livres a desenhar e a construir brinquedos. Apesar de na década 70 design e designer serem palavras desconhecidas do seu vocabulário, a sua veia artística e criativa já se manifestavam. Contrariando o desejo e o sonho do senhor seu pai, que ambicionava ter um filho arquitecto, Paulo Pereira licencia-se em Design de Equipamentos pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Lisboa Design Show (LXD) – Antes de falarmos da Saccus, diga-nos quem é o Paulo Pereira?
Paulo Pereira (PP) – O Paulo Pereira é um rapaz já na casa dos 40 que, como dizem os meus amigos, sofre de alguma híper atividade e que mistura a sua naturalidade africana com a cultura do norte da europa. Que gosta do sossego do seu canto, observador e aventureiro q.b..

LXD – Quando decidiu enveredar pelo mundo do design?
PP – Bom, esta questão remete-nos para a minha infância, onde desenhar e construir brinquedos eram o meu passatempo, claro está entre as travessuras naturais da idade. Na adolescência, já na fase de decisão de um futuro caminho profissional, lembro-me de uma grande discussão com o meu pai quando lhe comuniquei que iria seguir Design, contrariamente à sua vontade de que eu fosse arquiteto.

LXD – Quando tinha 6 anos de idade o que gostava de ser quando fosse grande? Designer?
PP – Quando eu tinha 6 anos, em plena década de 70, a palavra designer não me ocorria. Ocorreu-me ser professor, bailarino, arquiteto, alfaiate e até mesmo sapateiro, por influência do meu avô paterno, que o era profissionalmente.

LXD – Qual a sua formação?
PP – Sou licenciado em Design de Equipamentos pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, possuo um Mestrado em Práticas Culturais para Municípios e uma especialização em Design de Ambientes pela Lisbon School of Design.

LXD – Na sua carreira, com grande sucesso, tem tido os apoios necessários para avançar com o seu projecto?
PP – Nem sempre, na verdade tenho sentido algumas dificuldades. O projeto tem avançado com um esforço financeiro meu e pela minha, grande, vontade de seguir em frente e vencer.

LXD – Como surgiu a marca SACCUS?
PP – A marca saccus | ingenium liberat animum (designação oficial e registada da marca) surgiu muito pelo meu gosto pessoal por sacos, pastas, mochilas e acessórios de moda para homem. A criação da marca foi assim um processo natural e evolutivo da ideia à concretização.

LXD – Porquê o Burel?
PP – O Burel surgiu como hipótese após ter lido um artigo sobre este tecido tradicional português. O artigo despertou-me ainda mais a curiosidade sobre o material pois referia certas qualidades que o mesmo possuía, entre elas a impermeabilidade, e que naquele momento faziam todo o sentido para o percurso e objetos que queria desenhar e produzir. Quando produzido de acordo com a fórmula mais tradicional o Burel pode, também, adquirir características estruturáveis nas peças. Naquele momento fez todo o sentido conjuga-lo com a pele de curtimenta 100% vegetal.

LXD – È uma moda trabalhar o burel?
PP – Para mim não!

LXD – Que outros matérias-primas utiliza no seu trabalho?
PP – Já fiz algumas experiencias de conjugação do Burel com tecidos de algodão, sarja e linho.

LXD – Qual a importância do LXD para SACCUS?
PP – O LXD terá para a SACCUS uma importância crucial na sua divulgação e apresentação pública. Para uma empresa unipessoal como a minha e face a algumas dificuldades, atuais, de financiamento, o marketing e divulgação são sempre aquelas áreas mais difíceis de, sozinhos, conseguirmos atingir resultados imediatos. Assim a presença no LXD e o apoio que a sua equipa nos proporciona são, para mim, ótimas ferramentas de visibilidade, divulgação e marketing.

LXD – Os Jovens designers têm “Palco” em Portugal?
PP – Aceder ao “Palco” do design nacional nem sempre é tarefa fácil, mas acredito que de dia para dia Portugal, os consumidores nacionais e internacionais começam, finalmente, a olhar para a nossa produção que começa a ter diversos “palcos” dispostos a mostrar ao país e ao mundo o que de melhor Portugal e os seus designers produzem, quer em qualidade, quer em criatividade.

LXD – A sua participação no LXD vai surpreender quem nos visitar?
PP – Bem, sem querer ser narcisista, espero que sim…

LXD – Quer avançar com alguma novidade ou vamos esperar pela surpresa no evento?
PP – A novidade do trabalho que irei apresentar no LXD reside, essencialmente, no processo de criação das peças, já que a sua produção assenta numa confeção semi-industrial e manual com produtos e mão-de-obra nacionais.

LXD – É fácil para um jovem designer ganhar proximidade junto dos media em Portugal ?
PP – Mais uma vez por mim falo, não é de todo fácil chegar a uma proximidade com os media, pelo menos com os media especializados nas questões do design.

LXD – Que mensagem deixa para os jovens designers que ambicionam criar a sua marca?
PP – Uma simples frase de Charles Chaplin “You have to believe in yourself. That’s the secret of success.”

LXD – Pode a conjuntura económica global influenciar as tendências do design?
PP – A atual conjuntura económica é uma ótima ferramenta para o desenvolvimento de novas tendências e abordagens do design. Na minha opinião, é nestas alturas de crise que o design, no seu sentido lato, assume o seu primordial papel: desenvolver objetos e processos que facilitem a vida do ser humano de forma prática, acessível e económica.

LXD – O optimismo é uma ‘arma’ no design?
PP – O otimismo é a “arma” da existência humana, da sua capacidade criativa e social.

LXD – Considera que os portugueses são criativos?
PP – Sim de todo! Os Portugueses têm demonstrado, ao longo da sua história, serem um povo criativo e inventivo.

LXD – Há horas do dia que fomentem a criatividade?
PP – Para alguém que tem como uma das principais ferramentas de trabalho a observação, todas as horas do dia, até mesmo as de descanso, fomentam a criatividade.

LXD – Um designer olha para os espaços, para as peças e acessórios sempre com ‘defeito’ criativo e transformador?
PP – Não lhe chamaria “defeito” mas mais “vício”. O espirito crítico é, num designer, a sua mais viciante forma de evolução profissional. Encontrar pequenas ou grandes falhas em objetos ou processos já existentes e partir para um processo criativo e transformador dos mesmos é, julgo eu, o cerne da nossa atividade profissional.

LXD – O design faz parte das prioridades dos portugueses ou ainda não?
PP – Há uma ou duas décadas atrás diria que não! Atualmente, e quiçá fruto das tendências e modas da globalização, afirmo que sim.

LXD – Consegue identificar os principais sectores económicos em Portugal com maior ausência de design nacional? E quais os que apostam mais na associação design/empresa?
PP – Sem qualquer intervenção do design nacional o sector dos transportes, coletivos e particulares.
As indústrias da cerâmica, calçado, moda (vestuário e acessórios), mobiliário, comunicação, imagem e, nos últimos anos, o design de interiores são, para mim, aquelas que atualmente mais apostam na relação designer/empresa.

LXD – A exportação de design incorporado em bens e serviços é uma realidade em Portugal. Que exemplos de sucesso aponta?
PP – Não sendo um material que integre para já as minhas prioridades, a Cortiça é sem dúvida um exemplo de sucesso.

LXD – Independentemente do que é, ou não exportado, qual é, para si, o melhor exemplo de design português?
PP – Para que não apontar um dos vários bons exemplos diria que o melhor exemplo de Design Português são todos os que na sua atividade invocam, se inspiram e bebem das tradições, produtos e técnicas nacionais.

Curiosidades sobre Paulo Pereira

Género musical preferido – Clássica e Coral
Género literário preferido – Romance Histórico e Ficção
Autor preferido – Umberto Ecco
Realizador preferido – Steven Spielberg
Filme preferido – Vários, essencialmente gosto de boa ficção científica
Livro de cabeceira – Neste momento… material técnico
Um álbum que o tenha marcado – Banda sonora da Guerra das Estrelas
Um livro que o tenha marcado – O Perfume de Patrick Süskind
Um filme que o tenha marcado – 2001 Odisseia no espaço
Nas férias: praia ou campo? Um misto, gosto de locais que me proporcionem ambos
Um destino de férias (nacional ou internacional) – Ilhas Gregas
Pratica alguma actividade física? Não
Em férias, qual o destino nacional que recomenda? A Costa Alentejana
Qual a sua cor favorita? Laranja
Qual o seu fruto favorito? Melancia
Divisão da casa favorita? A minha pequena oficina
Divisão da casa onde passa mais tempo acordado? Entre a oficina e a sala
Prefere trabalhar em casa ou fora de casa? Neste momento em casa
Prato preferido da gastronomia nacional – Gaspacho alentejano
Sobremesa preferida da gastronomia nacional – Farófias
Água, vinho ou cerveja? Todos, mas mais água
Tem algum animal de estimação? Como se chama? Sim uma gata, de raça indeterminada, que foi resgatada da rua pela minha sobrinha. Devido à sua personalidade, chama-se Dora. É também a mascote da marca.