Alexandra Cabral

Designer de Moda, Artista e Professora

Alexandra Cabral - Designer de Moda, Artista e Professora

Alexandra Cabral é  designer de moda, artista, professora, e cantora no duche…
Sempre soube que queria ser designer e com três anos desfilava pela casa seminua, mas sempre de saltos altos, chapéu, mala ou óculos escuros… O design permitiu-lhe descobrir o mundo e fê-la uma pessoa mais permeáveis e mais flexíveis … “Existem mil e uma maneiras de fazer a mesma coisa….” Passou pela China e agora de regresso a Portugal abraça novos desafios, como o projecto Fitting Your Experience, uma marca a pensar nas necessidades do consumidor.  Defensora da democratização do design “O design é um investimento que tem de ser valorizado e os bons produtos do calçado só chegam a alguns mercados. Gostaria, no entanto, de ver uma marca portuguesa com preços mais acessíveis (e com design) para que pudéssemos todos disfrutá-la.”…

Quem é a Alexandra Cabral?
É várias coisas: designer de moda, artista, professora, e cantora no duche.

Qual a sua formação?
Licenciatura e mestrado em design de moda, embora o meu enfoque seja a moda como obra de arte contemporânea. Os estudos de doutoramento seguem a mesma linha de pensamento: design de figurinos.

Quando decidiu enveredar pelo mundo do design?
Desde que me conheço como pessoa, ou seja, a partir do momento em que comecei a pôr traços no papel.

Quando tinha 6 anos de idade o que gostava de ser quando fosse grande? Designer?
Designer de moda. Com três anos desfilava pela casa seminua, mas sempre de saltos altos, chapéu, mala ou óculos escuros. Curioso. Comecei por dar mais importância aos acessórios do que à roupa. Talvez venha daí a minha atenção nos detalhes.

Era uma daquelas meninas que “fazia” a roupa para as bonecas?
Era a que desenhava para elas… e para a família inteira, como nos catálogos que a vizinha de baixo trazia para que lhe encomendássemos roupa.

Na sua carreira, com grande sucesso, tem tido os apoios necessários para avançar com o seu projecto?
Tem havido vários projectos, alguns com mais apoios e outros com menos, não necessariamente do mesmo tipo. O sucesso tem sido relativo, e é relativo. Há acontecimentos bem mais valiosos do que o sucesso e isso acontece numa área feita de descobertas, muitas vezes emocionantes.

Como gere e lida com os obstáculos?
Com stress. Sou especialista em trabalhar com muito stress. Poderia responder à maioria dos anúncios de emprego que tenho visto…

Como surgiu a Fitting Your Experience?
No meio de muita expectativa de poder trabalhar num projecto de design de moda verdadeiramente consistente, numa empresa portuguesa. Principalmente numa marca que se interessasse sobre as reais necessidades do consumidor, como é o caso.

Qual a importância do LXD para a Alexandra Cabral? E para a Fitting Your Experience?
Um trabalho em moda enquanto não é mostrado não existe. O retorno da sociedade, da academia e dos profissionais da área é importante para a fluidez do projecto. É sempre um trabalho em desenvolvimento. É tão importante para o designer da marca enquanto criativo, como o é para a empresa, enquanto marca.

Quer avançar com alguma novidade ou vamos esperar pela surpresa no evento?
Já ouviu falar em alguma marca de moda portuguesa centrada no utilizador, e que faça I&D? Não? Então espere para ver…

Na sua carreira de docente em Portugal e na China, que semelhanças, se é que existem, com a forma de ensinar?
Existe uma metodologia de base, como se fosse uma linguagem comum e global. As diferenças culturais comandam a tónica dos projectos e as suas especificidades. De um modo geral, os chineses são mais eficientes e os portugueses mais criativos.

Um docente quando lecciona no outro canto do mundo, tem que “beber” a cultura desse Pais?
Não propriamente. Tem que tentar perceber o outro. E isso é uma tarefa complexa, tanto cá como lá. Passa por “beber” a cultura filtrada pela pessoa com quem se está. Ensinar é compreender o próximo.

Existem diferenças no sistema de ensino (Portugal/China)?
Muitas. Não há minuto do dia que escape ao ensino chinês. E tudo é sincronizado entre disciplinas. Assim é mais eficiente. Não quer dizer que produza melhores ou piores designers do que o sistema português. É  mais rápido a fazê-lo.

A China teve alguma influência na pessoa e profissional que a Alexandra é hoje?
Claro. Percebi que a linguagem gestual é uma falácia… Percebi que tudo é efectivamente relativo e custa-me a acreditar em supostas barreiras ou regras no design. Trabalhar com pessoas de todo o mundo deixa-nos mais permeáveis, mais flexíveis. Existem mil e uma maneiras de fazer a mesma coisa.

Ser designer de moda em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo é a mesma coisa?
Sim. A diferença está onde se faz design, em termos institucionais e não em termos físicos. Depende mais da conjugação de como e com quem.

Quem dita as tendências da moda?
O melhor é perguntar a um gabinete de tendências. Penso que seja o mercado no geral (em termos económicos), algumas pessoas (em termos de influência) e as grandes marcas (nas suas extravagâncias), num movimento contínuo. Acontecimentos históricos, sociais, políticos… tantos.

Por exemplo, quem dita a tendência “Cor”? A indústria Química?
A indústria orienta-se pelas tendências de mercado, veiculadas pelas feiras, gabinetes de consultoria e cadernos de tendências. Acredito que se houver uma grande inovação por parte da indústria química, que seja então ela a ditar a cor. Há sempre grandes interesses económicos por detrás de grandes estratégias. Pensemos no Ford T.

Qual o “estado” da moda em Portugal?
Se conseguirmos contar as marcas pelos dedos das mãos, quer dizer que está mal. Se perguntarmos lá fora pelo design de moda português, ninguém sabe responder. Acontece o oposto com o calçado, curiosamente.

Existe espaço no mercado para o nº de designers moda que todos os anos saem do ensino?
Sim, dado que vivemos num mundo global. Os designers de moda têm de ter a capacidade de adaptação que o próprio design exige. E não estou a falar daquilo que o mercado de trabalho impõe actualmente.

A indústria portuguesa, têxtil, confecção, calçado, etc é receptível aos designers e criativos de moda?
De um modo geral, não. As empresas são maioritariamente familiares. E normalmente há alguma resistência à mudança. Para além disso, ser-se criativo ainda é visto como sendo algo de estranho.

Como podemos projectar os designers portugueses no mercado internacional?
Por exemplo, fazendo valer o nosso património e inseri-lo nos projectos de design. Muitas vezes desaproveitamos aquilo que está à frente dos nossos olhos. Outra estratégia está na especialização e diferenciação das empresas (ou dos designers).

Considera que as marcas portuguesas têm palco no mercado internacional?
Qualquer marca que se distinga das restantes, sendo portuguesa ou não, tem palco.

O que diferencia a economia da moda (industria) portuguesa, por exemplo da Italiana? Qualidade existe, certo?
A indústria portuguesa não produz economia suficiente. E é por causa da falta de design nas empresas. Quando existe design, a qualidade está implícita, deixa de ser uma questão. De facto, quando produzimos para os outros, e segundo as suas condições, sabemos fazê-lo perfeitamente; por exemplo, produzimos para a Prada.

Como combater a deslocalização dos empresários da moda para a China?
Respondendo à pergunta de um modo geral: quando começarmos a pensar no slow-fashion e nos valores das nossas sociedades. É necessário mudar de paradigma. Até quando vai ser possível e sustentável lançar colecções a cada 6 meses? O que restará das nossas tradições têxteis, iconográficas e outras, se não apostarmos no que conseguimos produzir localmente? Sustentabilidade é uma das questões do momento.

A indústria do calçado tem ganho espaço no mercado internacional, e algumas marcas portuguesas têm surgido nos últimos anos? A que deve-se este movimento? Estratégia do sector?
Sim. É um sector que sabe desenhar, desenvolver o produto e promovê-lo junto de mercados bem definidos. O design é um investimento que tem de ser valorizado e os bons produtos do calçado só chegam a alguns mercados. Gostaria, no entanto, de ver uma marca portuguesa com preços mais acessíveis (e com design) para que pudéssemos todos disfrutá-la.

Pode a conjuntura económica global influenciar as tendências do design?
Claro que sim. É só olhar para a história da moda.

Curiosidades sobre Alexandra Cabral

Género musical preferido – Jazz ou Bossa Nova
Género literário preferido – Artigos científicos! Sou viciada…
Autor preferido – Gabriel Garcia Marques. Faz-me sonhar. E José Luis Peixoto também. “Cemitério de Pianos” acompanhou-me na China.
Realizador preferido – Almodovar, talvez. Woody Allen também não está mal.
Filme preferido – As pontes de Madison County; e Vertigo.
Livro de cabeceira – Qualquer um, desde que seja sobre arte contemporânea.
Um álbum que o tenha marcado – Certamente de Elis Regina. Não consigo lembrar-me do nome.
Um livro que o tenha marcado – “Imagens Errantes”, de Carol Garcia
Um filme que o tenha marcado – O Véu Pintado.
Nas férias: praia ou campo? Não vivo sem as duas e, felizmente, posso conjugá-las.
Um destino de férias (nacional ou internacional) – Itália, Itália, Itália
Pratica alguma actividade física? Gosto de passear à noite.
Em férias, qual o destino nacional que recomenda? Lisboa. Pode-se fazer de tudo em Lisboa.
Qual a sua cor favorita? Nunca sei responder a isso; laranja, roxo, vermelho…
Qual o seu fruto favorito? Figos.
Divisão da casa favorita? Quarto. Ai a minha cama…
Divisão da casa onde passa mais tempo acordado? Escritório.
Prefere trabalhar em casa ou fora de casa? Depende do tipo de trabalho. Mas gosto de trabalhar em bibliotecas.
Prato preferido da gastronomia nacional – Favas. Não há? Então, ervilhas.
Sobremesa preferida da gastronomia nacional – Os nógados de Mértola, sobre folhas de laranjeira.
Água, vinho ou cerveja? Vinho, e tinto.
Tem algum animal de estimação? Como se chama? A minha gata Björk.